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A utilidade da filosofia: Um problema filosófico ou cultura?


Nunca ouvi ninguém perguntar “Para quê serve a Matemática?” ou “Para quê serve a Física?”. No entanto, ouço frequentemente perguntarem “Para quê serve a Filosofia?”.  Considero esta última pergunta natural, e ao mesmo tempo intrigante, pois que razão de ser e serventia possui uma disciplina teórica em tempos de tecnologia e acontecimentos velozes? Dessa forma, creio que esta pergunta merece uma resposta elaborada sobre a utilidade da filosofia e por que razão a mesma não é encarada como uma disciplina que possui naturalmente seu lugar na escola e na cultura como as demais disciplinas de caráter técnico-científico.
Em primeiro lugar é preciso entender o conceito de utilidade que está em voga atualmente. Em nossa cultura, incluindo o âmbito educacional, se assume o conceito pragmático de utilidade, ou seja, só é útil aquilo que possui aplicação prática imediata e que pode trazer resultados concretos, ou ainda algum tipo de vantagem. Se formos pensar a Filosofia, sob a luz deste conceito de utilidade, a mesma assume o direito de não estar encaixada sob esta definição, apesar de parecer perder o seu lugar na cultura geral. A razão disso é que Filosofia não é técnica que se aprende e se aplica, apesar de muitos dos conceitos filosóficos possuírem sua origem no mundo da prática e servirem de fundamento para as ações humanas.
Mas afinal, para quê Filosofia na escola? Esta pergunta, feita aqui em tom de ironia, reflete uma herança educacional de muitas décadas, surgida no período militar em que a educação era voltada para formação de mão-de-obra qualificada para o mercado de trabalho e para o desenvolvimento industrial do país. O que justificou na época do regime militar a proliferação de cursos técnicos e curso voltados para as áreas de ciências exatas, em especial as engenharias. Neste cenário, e no atual, o que conta mesmo é produzir para vender e trabalhar para consumir, ou seja, é preciso fazer a economia girar e não ficar a contemplar possíveis verdades. Retrato satírico do filósofo que vive a olhar as nuvens tentando encontrar a forma imutável da verdade!
Esta herança cultural está ainda em evidência após quase trinta anos de extinção do regime militar brasileiro, podendo ser constatada através de expressões de uso cotidiano, como: “Quem duvida é louco!”. O que expressa acima de tudo a ideia de que o refletir, analisar, criticar e o questionar, instrumentos próprios da Filosofia, são sinônimos de criação de desordem e caos em um mundo em que cada coisa, aparentemente, se encaixa perfeitamente no seu lugar. A atitude conformista, própria do raciocínio linear, ainda salta aos olhos nos discursos cotidianos, como “Deixa assim mesmo, melhor nem tentar porque não adianta, não vai mudar nada”, como por exemplo, quando há referências ao cenário político brasileiro.
Dessa forma, a principal herança, em termos de valores e cultura, do período militar, é a supervalorização da técnica em detrimento do pensar crítico, o que não significa que devamos abandonar ou minorizar a importância das disciplinas científicas modernas. A “rica” herança cultural mencionada se reflete de maneira clara no atual ensino de filosofia e nos problemas que estão implicados neste contexto. O que pode ser percebido, principalmente no que diz respeito a atitudes diante da disciplina, como por exemplo: “Cada um tem a sua filosofia”, “Não existe verdade em filosofia, se pode dizer o que quiser, pois não passa de confronto de opiniões”, ”Filosofia é oferecer visões de mundo assim como fazem as religiões.”, e “A minha filosofia de vida é…”. A visão geral que se oferece é que a disciplina de filosofia é somente uma disciplina a mais e que não possui fundamentos teóricos e nem objetivos reais de aplicação, além de não possuir “serventia” no cenário cultural atual. Atitudes estas que somente refletem o fato de que não há uma real compreensão dos propósitos de sua reinserção no currículo escolar, que é, sobretudo, promover a formação intelectual e cultual voltada para a construção da cidadania e modos de vida baseados em princípios éticos. Estes, por sua vez, fundados em uma construção comunitária através do trabalho de reflexão, análise, crítica e reconstrução. Tudo isso, de forma dialógica, ou seja, no movimento incessante de contrapor ideias e que resulta sempre em novas ideias que continuarão a transformar-se em um movimento progressivo.
A Filosofia, em certo sentido, se trata de uma tentativa de provocar uma mudança nas pessoas enquanto agentes da verdade e da ação, ou seja, uma mudança de atitude que seja ao mesmo tempo uma mudança subjetiva e uma mudança objetiva, pois é uma mudança que deve partir do âmbito pessoal com vistas à ação, ou seja, uma modificação paulatina da realidade, promovida pelos sujeitos, tendo como alvo a ideia de bem comum.  Além de ser entendida como um saber que visa à promoção do bem comum, a Filosofia pode ser entendida também como uma ciência de fundamentos, ou seja, ela presta serviço às demais ciências refletindo sobre os conceitos que estas operam. Neste sentido, a Filosofia pode ser entendida como uma “ciência das ciências”, ou, uma ciência que pensa sobre os fundamentos sobre os quais se assentam as demais.
 As demais ciências e os seus membros, por estarem ocupados demais com seus experimentos e pesquisas, acabam não tendo tempo para refletir sobre os próprios fundamentos que as sustentam. Dessa maneira surge a filosofia, como uma ciência que a pensa sobre os fundamentos que sustentam o edifício do conhecimento. Por exemplo, um cientista preocupa-se em fornecer boas explicações sobre os resultados de uma pesquisa, sem, no entanto, perguntar-se sobre o que é uma explicação cientifica e qual é o modelo em que se baseiam as formulações de suas próprias explicações científicas e os usos e limites da linguagem científica. É aqui que entra a Filosofia, pois, esta irá refletir sobre o que é uma explicação e ajudar as ciências a clarificar os conceitos a partir dos quais elas mesmas operam. Nesse sentido, é possível pensarmos a filosofia como um saber transversal, pois seus conceitos atravessam todas as disciplinas escolares, como por exemplo, os conceitos de liberdade e necessidade. Basta pensarmos como estes conceitos estão presentes em disciplinas como a Biologia, a Física, a Química e a História! Além disso, são conceitos operacionais nestas áreas do saber, possuem funções primordiais na fundação e modo de operar destas ciências!
Pois bem, dadas algumas definições básicas sobre as razões de ser da Filosofia e suas implicações, devemos voltar à pergunta inicial, e responder: Qual seria então a utilidade da filosofia, uma vez que no conceito atual de utilidade esta não se encaixa e advoga o direito de não se encaixar? Nada melhor do que a clássica resposta da professora e filósofa brasileira Marilena Chauí para este problema: “Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.”
 No entanto, sabemos que para que este sentido de utilidade, próprio da Filosofia, seja “utilizável” é preciso aos poucos nos desvencilhar de uma herança cultual em que o que é valorizado é o raciocínio linear, voltado para o simples fazer “automático”, ou seja, para a aplicação imediata de saberes no plano concreto a partir da visão de lucro e vantagem. Somente aos poucos, poderemos nos livrar do peso da história sobre nossa cultura e educação, a ponto de conseguirmos não mais nos perguntar em tom de ironia: “Para que serve a filosofia?”.
Prof. Mestre  Artur R. A.  Weidmann