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TRÊS ANOS SEM O MANO MARCELINHO DO CIDADE NOVA


O Mano Marcelinho foi morador do Cidade Nova. Hoje está completando três anos de sua morte trágica. Na época escrevi um texto que agora republico no site do CNI...
Esse mano faz parte da história do Cidade Nova.

DESCANSE EM PAZ MEU MANO

Não me lembro bem da primeira vez que vi o mano. Acho que foi num evento de Rap. Depois ele mudou-se pro Cidade Nova e começou a freqüentar meu barraco. Sempre colava pra ouvir música, gravar cds e trocar idéia. Nos tornamos amigos e o mano me contava várias histórias. Um passado sombrio de embalo nas drogas, as recuperações, as recaídas. Nunca escondeu nada de ninguém. Começou a gostar de rap quando esteve preso no antigo CIAADI. Num projeto social que trabalhava com adolescentes, conheceu seu primeiro amor. Foi ali também que começou a escrever suas primeiras letras de música. Viveu uma vida meio nômade, indo e vindo de quebrada em quebrada. Não viveu muito com sua mãe e menos ainda com seu pai. Sempre foi de sumir por alguns meses sem dar notícias e depois reaparecer na quebrada. Às vezes chegava no meu barraco e contava que estava há alguns dias sem dormir e sem comer; pedia abrigo. Já foi meu “cobaia” numa receita de hambúrguer de berinjela que eu estava fazendo. Repetiu três vezes e disse que em casa a sua mãe nunca deixou ele comer mais de um prato de comida por refeição.

Era desses caras desastrados, já derrubou copos, equipamentos de som, chutava as coisas sem querer. Também era descuidado, todos os cds que eu gravei pra ele com instrumentais ele perdeu. Deixava por aí. Uma vez passei na frente de um bar e tava tocando um desses cds. Depois desse dia eu ficava com os cds e ele só ia ensaiar na minha casa. Me contou que o único lugar que ele se sentia bem era no meu barraco. Toda a vez que ele tava mal colava lá em casa, pedia um papel e uma caneta e começava a escrever. Às vezes escrevia uma música inteira em menos de uma hora. Era muito talentoso, cantava bem e tinha uma poesia bem escrita, cheia de rimas.

Escrevemos algumas músicas juntos, chegamos a gravar duas delas que divulgamos no Cidade Nova e a galera curtiu. Uma delas falava da vida do crime, como é uma vida ilusória, falava do seu passado e da nova perspectiva após conhecer o Hip-Hop. A outra canção falava do preconceito e criminalização que o povo pobre trabalhador sofre pela ação violenta do Estado. Das ultimas canções que ele escreveu, uma era pra sua mãe, outra pra mãe do seu filho, e a terceira era em homenagem aos seus amigos. Pretendia também escrever uma canção para aqueles amigos que já se foram. Nessas visitas à minha casa eu quase consegui fazer o mano pegar gosto pela leitura. Ele que não estudou muito e abandonou também o PROJOVEM, leu alguns fanzines e chegou a levar pra casa o livro do Alessandro Buzzo Suburbano Convicto, mas devolveu pela metade.

Admitia que fez muita coisa errada na vida, queria tentar recomeçar. Foi morar no Paraguai, trabalhou em uma olaria por um tempo e depois voltou pra Foz. A última vez que conversei com ele, me pediu um cd de instrumental, pois iria embora pra Curitiba, trabalhar e morar por lá. Fiquei meses sem ver o mano. Há alguns dias atrás a sua irmã de Curitiba entrou em contato comigo, queria muito vê-lo, pois não o via há muitos anos. Veio pra Foz, mas não conseguiu encontrar o irmão. Voltou pra capital e continuou com a esperança de que eu encontrasse seu irmão.

Na terça feira uma garota chegou até a casa da mãe do meu mano e passou a notícia: “Ele estava morando comigo no Jd. Itaipu, a gente brigou, discutimos, e ele foi lá pra fora, disse que queria ficar sozinho. Ele subiu numa árvore que tinha no quintal, acendeu um baseado e ficou lá quieto. Quando eu saí pra fora ele tinha se enforcado com um fio de cobre”.

O Cidade Nova amanheceu triste. Ninguém acreditava que um mano que curtia a vida como ele, iria chegar a se matar. O mano tinha vários amigos, apesar da sua vida meio doida. Quem vai explicar os motivos de uma vida assim sem alto-controle? Uma vida sem muito planejamento, sem muitos planos pro futuro... O futuro não chegou, morreu jovem, muito jovem, com vinte anos.

Esteja onde estiver, descanse em Paz meu mano Marcelinho. Sentiremos saudades.

(Texto escrito por Mano Zeu e publica originalmente em 28 de janeiro de 2011 no blog: http://umpescadordepalavras.blogspot.com.br)