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#CNIcompartilha: AS EXPRESSÕES DA FRONTEIRA NA PRODUÇÃO MÚSICAL DE FOZ DO IGUAÇU/PR: EXPLORANDO OUTRAS FONTES PARA O ESTUDO DO SUJEITO FRONTEIRIÇO


Aline Simão Barroso Torres*
Eric Gustavo Cardin**

Resumo: O presente artigo análisa a região de confluência das fronteiras do Brasil, Paraguai e Argentina a partir da análise das letras de músicas de grupos de Foz do Iguaçu que discutem o cotidiano na fronteira. A utilização da música como fonte de pesquisa deriva do esforço em construir leituras sobre a fronteira diferentes das demais produções acadêmicas existentes sobre o universo em questão. Em grande medida, essas produções utilizam entrevistas com os sujeitos sociais que residem na fronteira, além de documentos oficiais sobre a região. Assim, buscamos apresentar outra visão dessa realidade, mesmo utilizando moradores e trabalhadores dessas cidades, focamos a atenção para as representações fornecidas pela produção artística, mais especificamente a música, a qual tem uma acessibilidade maior entre as comunidades das cidades. 

Palavras chaves: Fronteiras, música, questão social.

Abstract: This paper analyzes the region of the confluence of the borders of Brazil, Paraguay and Argentina from the analysis of the lyrics of groups of Foz do Iguaçu to discuss the border everyday. The use of music as a source of research stems from the effort to build different readings on the border of other existing academic productions over the border in question. Largely, these productions using interviews with social subjects residing in the border, as well as official documents about the region. Thus, we seek to present another view of this reality, even using residents and workers of these cities, we focused our attention to the representations provided by artistic production, specifically the music, which has greater accessibility between communities of cities.

Keywords: Borders, music, social issue.


1 INTRODUÇÃO

A região de confluência das fronteiras do Brasil, Paraguai e Argentina vem ganhando destaque midiático e acadêmico na última década. As desigualdades sociais, os fluxos de contrabando, o tráfico e os possíveis vínculos de moradores da região com grupos terroristas foram objetos de estudos de diversos pesquisadores e alvo de inúmeros jornais e revistas, muitas vezes com abordagens sensacionalistas. No intuito de contribuir no entendimento da região e ampliar as leituras possíveis, o presente artigo problematiza como alguns grupos musicais da região elaboram imagens sobre a fronteira em suas canções. Assim, considerando apenas músicas que abordam as vivencias cotidianas da fronteira, o texto se concentra na produção de três bandas de rock, um rapper e uma banda de baile.

De maneira geral, as três fronteiras são conhecidas mundialmente pelos seus atrativos econômicos, pela sua diversidade cultural e pelos conflitos entre a polícia e os contrabandistas. Tais assuntos rotineiros na imprensa local e na produção universitária sobre a região (CARDIN, 2011; CATTA, 2002; RABOSSI, 2004), também são constantes nas letras das músicas dos grupos escolhidos. Contudo, a forma com que eles abordam essas questões é pautada geralmente a partir de suas histórias pessoais e, em grande medida, sobre as condições de vida da população, que quase sempre depende economicamente dos países vizinhos, principalmente do Paraguai. Assim, buscando apresentar outra visão da fronteira, adotaremos como fonte de pesquisa as letras das músicas, elemento pouco observando pelos estudiosos da região.

A cidade de Foz do Iguaçu recebe mais de um milhão de turistas anualmente, além de belezas naturais, como o Parque Nacional do Iguaçu, que tem como produto principal as Cataratas do Iguaçu (uma das sete maravilhas naturais do mundo), ela abriga uma das maiores hidrelétricas existentes, a Usina Hidrelétrica de Itaipu, que foi fundamental para o crescimento da cidade de Foz do Iguaçu, pois provocou a migração de trabalhadores de todos os lugares do Brasil. Durante o período de 1970 a 1980 a cidade de Foz do Iguaçu passou de 30 mil habitantes para cerca de 130 mil, o que acarretou diversos problemas sociais, já que a cidade não estava preparada para abrigar um número tão expressivo de moradores. Atualmente a cidade tem cerca de 250 mil habitantes.

Do outro lado da Ponte da Amizade está localizado o município de Ciudad del Este - Paraguai. Fundada em 1957 e lotada no departamento de Alto Paraná, esta cidade foi fundada visando interesses econômicos, numa região que era ocupada principalmente por grandes latifúndios.

Ciudad Del Este nasceu com o nome de Puerto Presidente Stroessner em Homenagem ao presidente que tinha assumido três anos antes e que ficaria ainda por mais 32 anos no poder. Puerto Presidente Stroessner foi fundada pra receber a rodovia que estava sendo construída pelos governos brasileiro e paraguaio e que ligaria a região central do país com a costa atlântica brasileira, rodovia que fazia parte de um plano mais amplo que havia começado a partir da visita de Getúlio Vargas ao Paraguai em 1941, quando uma série de acordosfoi assinada; entre eles a cessão ao governo paraguaio de facilidades no porto de Santos (RABOSSI, 2004, p. 2).
A partir da construção da ponte ligando os dois países, a região próxima ao limite internacional passou a concentrar um mercado direcionado a importação e exportação. A criação de uma zona de livre mercado do lado paraguaio da fronteira acentuou o fluxo de compristas, pois seu comércio se tornou muito atrativo para os brasileiros e argentinos, que começaram a ir com frequência para Ciudad del Este com objetivo de comprar mercadorias para revende-las em seus países de origem, dando inicio ao circuito sacoleiro (CARDIN, 2011). Vendo que era vantajoso trabalhar com produtos importados, alguns comerciantes árabes instalados em Foz do Iguaçu começaram a abrir lojas no município paraguaio, fortalecendo o fluxo de imigrantes para a região (RABOSSI, 2004).

Por outro lado, as relações fronteiriças entre Brasil e Argentina não são tão intensas. A cidade de Puerto Iguazú está localizada na província de Missiones. Fundada em 1901, seu povoamento ocorreu devido ao fluxo causado por excursões realizadas aos saltos que formam as Cataratas do Iguaçu, quando empreiteiras argentinas destinaram recursos econômicos para quem viessem a abrir o acesso terrestre as cataratas. A cidade tem em seu território parte do Parque Nacional do Iguazú, o qual possui uma vista exuberante das Cataratas, que ainda hoje é uma das principais fontes de renda da cidade. Atualmente, o município atende os brasileiros que fazem turismo gastronômico na cidade, e também os turistas que se hospedam em Foz do Iguaçu e querem aproveitar para conhecer outro país (NUÑEZ, 2009).

No intuito de entendermos um pouco mais desta região e observamos a presença da fronteira na formação do sujeito, investigamos a produção de artistas que refletem um pouco a conjuntura descrita. O tema central do trabalho é a produção musical da cidade sobre a fronteira. Sem a ambição de tentar abranger a totalidade das manifestações, a pesquisa se concentrou nos grupos que compõem suas músicas e que discutem diretamente o cotidiano da fronteira. A idéia inicial da pesquisa era trabalhar com grupos das três cidades limítrofes, mas não conseguimos achar bandas de Ciudad del Este nem de Puerto Iguazú que compunham sobre o tema de interesse, nem mesmo sobre as trocas socioculturais entre as três cidades. Logo, nos focamos exclusivamente no que havíamos encontrado, ou seja, nos grupos de rap e rock da cidade de Foz do Iguaçu e em uma banda de baile de Medianeira (cidade a 50 km de Foz do Iguaçu).

Inicialmente foram feitas pesquisas exploratórias no intuito de localizar os músicos da cidade que abordam em suas composições a vida cotidiana do morador da fronteira. Essa foi a primeira dificuldade, pois inicialmente imaginávamos que seria fácil encontrar grupos que abordasse o tema, já que é o cotidiano de todas as pessoas que moram na região. Depois de semanas de buscas, encontramos alguns informantes que nos mandavam o contato de grupos que poderiam nos ajudar na pesquisa e assim foram aparecendo nossos interlocutores e construindo a rede de relações que possibilitou o desenvolvimento do estudo. Neste momento, nos chamou a atenção o fato de que alguns dos grupos entrevistados nunca haviam se dado conta da importância das suas músicas para o entendimento da história local.

Para tentarmos avançar na compreensão do problema investigado, tivemos de observar as trajetórias, as experiências, os “causos” narrados por nossos interlocutores. Para tanto, utilizamos algumas técnicas de pesquisa oral (AMADO e FERREIRA, 2000). As entrevistas que realizamos foram organizadas através de questionários semiestruturados, onde buscamos levantar alguns elementos de suas biografias e problematizar como esses sujeitos sociais trabalham em suas canções as fronteiras que delimitam a formação de suas próprias identidades, como também como eles observam as interações socioculturais de se viver na fronteira e de usufrui de suas possibilidades.

Para tanto, utilizamos o roteiro contextual. Tal técnica é sugerida para análise qualitativa, como História Oral e História de Vida. Este roteiro foi utilizado no início de cada discussão, porém, no decorrer da entrevista utilizamos a entrevista semiestruturada, onde, segundo Amado e Ferreira (2000), algumas perguntas precisam ser previamente formuladas a fim de elucidar dúvidas mais objetivas presentes no processo de investigação. O texto está organizado em três momentos. No primeiro encontra-se a apresentação dos entrevistados, um pouco de suas trajetórias e experiências. No segundo está à análise da produção musical e, por fim, no último momento, destacamos alguns elementos da fronteira encontrados nas canções.

OS INTERLOCUTORES

Os primeiros contatos com os grupos escolhidos foram realizados no mês de junho de 2012 durante shows, rodas de amigos e bares da cidade. Neste momento, localizamos três bandas de hardcore e um rapper. Tínhamos como proposta inicial trabalhar com grupos de rock, rap e música folclórica, entretanto tivemos dificuldades em encontrar estes grupos na Argentina e no Paraguai. Visando superar as dificuldades, entramos em contato com as rádios de Ciudad de Este e de Puerto Iguazú para que nos indicassem grupos que trabalhassem com a temática de fronteira. Assim, um funcionário da rádio Play FM de Ciudad del Este nos encaminhou uma música de um grupo brasileiro da cidade de Medianeira, que fica a cerca de 50 quilômetros de Foz do Iguaçu. 

Escutamos a música e constatamos que a letra narrava o trabalho informal na fronteira. Consequentemente, tentamos entrar em contato com a banda, mas não tivemos sucesso de imediato, encaminhamos vários e-mails que não foram respondidos. Depois de muito tempo, o autor da música nos escreveu, pedindo desculpa pelo atraso e que poderia nos ajudar, entretanto teria de ser por e-mail, já que ele estava trabalhando muito e não teria tempo para agendar uma entrevista presencial.

Foi dentro de tal conjuntura que conhecemos Evandro Carlos Galeazzi, produtor musical e compositor da música “Paragua”. Evandro nasceu na cidade paranaense de Dois Vizinhos e desde 1987 trabalha com música, tocando em diversas bandas do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em 1997 mudou-se para São Miguel do Iguaçu com o intuito de trabalhar com uma banda da cidade e no ano de 2000 montou seu próprio estúdio de gravações. No momento em que conversamos, o interlocutor tinha 41 anos e atuava como produtor musical na empresa DuettoStudio. Evandro narra o seu dia como sendo de muito trabalho, que “por amor e pelas exigências do ramo”, exige muita dedicação. Segundo ele:

O dia começa ás 9 da manhã e termina ás 5 da madrugada. Todo dia. Feriados e Finais de semana inclusive (...). Um artista me procura com uma letra ou uma canção. Com isso, faço uma produção, com base na carreira do artista, no estilo e outros fatores. Crio um arranjo para essa música, (...) depois de todo o material captado, faço a mixagem, onde damos timbre a tudo isso. Definimos os níveis sonoros que desejamos para cada instrumento e vozes, dando a sonoridade final, que é como ouviremos a música pronta. (...). Depois faço a masterização, que é o equilíbrio tonal e dinâmico entre todas as faixas, para que essas faixas soem semelhantes acusticamente. Assim, ganha vida mais um CD, na forma que o conhecemos.
Evandro diz gostar do seu trabalho e afirma que trabalhar com isso numa região de fronteira tem um diferencial “muito interessante”. Quando questionado sobre a vida em uma cidade de fronteira, o interlocutor declara que se sente como se o mundo passasse em frente a sua casa. Segundo ele há diversas vantagens em morar nessa região, entre elas a logística fácil por ser uma rota importante. Entretanto, o grande fluxo de trabalho faz com que ele não possa se ausentar muito do estúdio, limitando a possibilidade de vivenciar a fronteira com maior intensidade. Para o compositor, trocas culturais nessa região acontecem a todo o momento:
em comparação com outras regiões, acho que aqui não se vê preconceitos raciais, nem bairrismos. E o contato com outros povos influencia muito, talvez até inconscientemente. No meu ramo, noto noto que todos que trabalham aqui sofrem misturas de culturas no seu estilo.
O segundo grupo que tivemos contato foi o “Socialmente Incorreto”. Fazendo um som que é definido pelos integrantes como “hardcore”, a banda encontra-se ativa desde meados de 2003 e é composta por Velo (vocalista), Marcos (guitarrista), Rodrigo (baixista) e Cleiton (baterista). As influências observadas em suas composições perpassam pelo punk rock, pelo hardcore nova-iorquino e o rap. Embora prefiram não serem rótulados, o “Socialmente Incorreto” apresenta em suas composições letras de protesto, criticas a realidade social da fronteira, assimo como à mídia hegemônica. Em 2007, eles lançaram seu primeiro CD, que teve uma boa receptevidade e permitiu a realização de várias apresentações fora da região.

Entrevistamos o vocalista da banda, Ademar Leonel Novelo Junior, conhecido como “Velo”. Ele é o principal compositor do grupo. A entrevista foi realizada no final da tarde do dia 22 de junho de 2012, na cidade de Foz do Iguaçu, na casa do entrevistado. Velo nasceu na cidade de Toledo/Paraná, seu pai trabalhava com venda e manutenção de tratores, mas com a construção da Hidrelétrica de Itaipu, passou a ser mais vantajoso para eles morarem na cidade da construção. Assim, quando ele possuía três anos de idade, sua família veio morar na cidade de Foz do Iguaçu. Mesmo não sendo um nativo de Foz, suas lembranças são todas da cidade que abrigou sua família.

Segundo o interlocutor, desde muito novo escrevia letras de músicas. Nessa época ele escrevia algo mais inocente, mas sempre com uma pitada de protesto. Além disso, participou ativamente na organização de shows do movimento underground da cidade durante a década de 1990. Atualmente com 31 anos de idade, é casado, graduado no curso de publicidade e propaganda e morador do bairro Jardim Lancaster, um bairro de trabalhadores da cidade de Foz do Iguaçu.

Velo trabalha em uma empresa de lingerie do outro lado da ponte, em Ciudad del Este - Paraguai. É essa vivência que faz com que ele escreva com muito mais precisão e detalhes o que ocorre nessa fronteira. Velo trabalha em Ciudad del Este e por atravessar diariamente a Ponte da Amizade diz ser parado pela policia aproximadamente duas vezes por semana. Ele atravessa a ponte de moto e isso chama a atenção dos policiais. Segundo ele, atravessar a ponte às vezes é uma situação constrangedora. Neste sentido, narra que ao atravessar a aduana brasileira:
Os policiais acham que todos ali são foras da lei. Quando eles me param já vão logo falando “onde você escondeu?”, “cadê, cadê?”, eles revistam a moto e pronto. Falam que eu posso ir embora.
A banda “Socialmente Incorreto” traz para a discussão problemas sociais existentes na fronteira, além disso, criticas a forma em que a mídia retrata a região.Quando questionado sobre o fato de compor sobre a fronteira, Velo aponta que:
o estilo da banda é o Hardcore, um estilo que faz músicas de protesto, falando sobre a cidade, o cotidiano. Com isso eu acabo falando sobre a fronteira, pois é a realidade que eu conheço, eu não sei como é viver em outro lugar. Os problemas que acontecem aqui são iguais aos que acontecem em outras cidades, só que com o agravante de ser na fronteira.
O terceiro grupo a ser apresentado será a banda “Bloodshot”, que atuou no movimento underground de Foz do Iguaçu entre o período de 1999 a 2005. Podemos dizer que essa foi uma das bandas mais conhecidas do estilo hardcore na região. A banda chegou a lançar dois CDs, o primeiro lançado em 2002, “In a Day Like Today”, que foi sucesso tanto em Foz do Iguaçu como nos dois países vizinhos. A partir desse CD foram chamados a fazer shows em diversas cidades do estado e também nas cidades de Puerto Iguazú, Ciudad del Este e Assunção. O CD também teve boa aceitação na capital argentina, tendo aproximadamente 500 cópias vendidas na cidade de Buenos Aires, número surpreendente para uma banda independente.

No ano seguinte, a banda lançou seu segundo CD, “Evilution”. Nesse período a banda passou a atingir um público bem maior em diversas cidades do sul do Brasil. Logo, começaram a tocar com grandes nomes do cenário nacional e também com grandes nomes do rock paraguaio. O fim da banda ocorreu em 2005, devido à constante troca de integrantes, fruto da falta de incentivo e de dificuldades para dar continuidade aos shows e viagens. Destaca-se o fato que no ano de 2005 somente o vocalista era da formação original e foi com ele que tivemos oportunidade de conversar.

Rodrigo Monzon, mais conhecido como “Digão”, é o compositor das letras da banda. A conversa que tivemos com ele foi bastante extensa, já que ele foi bastante ativo na cena local. Quando realizamos a entrevista ele tinha 33 anos e havia atuado ativamente na organização de festivais de contracultura na cidade de Foz do Iguaçu desde 1995. Foi editor de diversos fanzines da cidade, como por exemplo, “Streitpunkt” e “Urbanóxo”. Em 1997 montou em sua casa um estúdio de ensaio, por onde passaram algumas bandas de amigos. Organizou e ainda organiza shows de hardcore pela cidade.

Digão montou uma nova banda em 2008, a “Artilleria Pesada”, com uma música que fosse ainda mais expressiva, porém sem abandonar o estilo de mistura entre hardcore e rap que já vinha fazendo no Bloodshot. No início a banda era formada por dois integrantes da banda antiga, com mais dois outros amigos. Com o passar do tempo seus integrantes foram se modificando e atualmente somente o vocalista e o baterista são da formação original. O “Artilleria Pesada” será o terceiro grupo que iremos trabalhar, já que as temáticas das letras seguem o mesmo raciocínio da outra banda de Digão, que era falar da fronteira. A banda fez um registro em um CD-demo, “Demonstrando Mucho Style”, onde se destaca a mistura de idiomas, que passeiam entre português, espanhol, guarani e inglês (www.facebook.com/digãomonzon).

O próximo entrevistado foi Eliseu Pirocelli, mais conhecido como “Mano Zeu”. Quando conversamos ele tinha 33 anos e tinha o ensino médio completo. Atualmente mora no Bairro Cidade Nova, trabalha em Furnas, por meio de um contrato temporário, exercendo a função de auxiliar de eletricista. Semelhante ao interlocutor anterior, Mano Zeu é um dos principais representantes do underground da região, trabalha na organização de eventos e na produção e edição de vídeos, principalmente aqueles vinculados a cena hip hop. Contudo, ele diz gostar de diversos gêneros, “o que mais me agrada ou desagrada numa música é a letra”.

Nascido em Foz do Iguaçu, perdeu o pai bem pequeno. Seus pais vieram para a cidade na década de setenta, assim como muitos outros moradores de Foz que migraram de diferentes regiões com a esperança de encontrar emprego na construção da Usina de Itaipu. Sem obter sucesso, sua família foi morar na Favela do Jardim Paraná, sem condições mínimas de sobrevivência. Pouco tempo depois seu pai veio a adoecer, ficou paraplégico e morreu logo em seguida. Sua morte ocorreu na década de oitenta, enquanto isso sua mãe trabalha de doméstica em casas de família. Algumas vezes sua mãe o levava junto para o trabalho, momento em que observava os brinquedos e os gibis do filho do dono da casa. Quando saia da casa, passava pelas bancas de revistas e ficava folheando diversos gibis, foi assim que ele passou a ter gosto pela leitura e, consecutivamente, pela escrita.
Tenho sempre um papel e uma caneta na mochila. Tudo o que surge do nada na minha cabeça eu passo pro papel. Tenho centenas de rascunhos em casa. Nem tudo vira música, às vezes vira uma poesia, um texto, uma crônica, conto... às vezes não vira nada. Eu não gosto de forçar a criação, eu deixo as idéias fluírem na cabeça. Eu tento também pescar coisas no dia a dia, uma conversa com um amigo, algo que assisti num filme, li num livro, um acontecimento aqui da favela, um debate numa reunião, tudo pode virar versos em alguma composição nova que to fazendo. 
No ano de 2010, Zeu gravou o álbum “Brasil Ilegal”. Como o nome sugere, ele fala sobre um Brasil clandestino. Fazendo um uso duplo da palavra, o interlocutor tenta demonstrar e destacar pelo título do trabalho os problemas sociais do país e os aspectos da ilegalidade típica da fronteira. Assim como nosso primeiro entrevistado, Zeu acredita ser impossível falar de outra coisa que não seja à fronteira, pois ela faz parte do seu cotidiano. Neste sentido, quando questionado sobre a relação das fronteiras internacionais com sua produção musical, ele afirma que:
Como o rap narra o cotidiano, o dia a dia, a fronteira estará presente nas letras. Boa parte da galera do rap ou trabalha ou trabalhou no Paraguai. Dentro das favelas a gente vê a galera fumando cigarro paraguaio, usando roupas que comprou lá, vê os moleques com pen-drive, cartão de memória curtindo rap nas caixinhas de som portátil, tudo comprado no Paraguai. A galera se reúne nos quintais das casas pra tomar tererê. Tem uma certa acessibilidade a bens de consumo, então o pessoal atravessa a ponte, compra um narguilê, essência, whisky, energético, faz uma festinha e coloca luzes de discoteca. Nesse sentido Ciudad Del Este está sempre presente, e isso tudo vai pras letras de rap também. Pela questão de ser fronteira sempre está tendo as tais operações para combater o contrabando e narcotráfico e toda essa polícia que vem pra cá não fica somente ali na região da Ponte, eles vem pra dentro das favelas e acontece muito abuso de autoridade, agressões, torturas, execuções. Isso tudo influencia a composição das letras, a galera do rap quer escrever sobre aquilo que os incomoda. 
Ele também utiliza palavras em espanhol e em guarani nas suas músicas e no seu cotidiano. Entretanto, as que ele utiliza nas letras são sempre palavras que já viraram gírias entre as pessoas no bairro onde mora. Para ele, “quando elas estão nas letras das musicas é porque já se popularizaram nas ruas”. 

3 AS MÚSICAS 


A música corresponde a uma produção social, onde se apresenta questões culturais, históricas, geográficas, econômica, políticas e estéticas. Analisá-las nos permite observar o mundo sob a ótica de outra pessoa ou grupo. É a partir deste pressuposto que começamos a apresentar as músicas encontradas. A primeira delas é “Guerra na Fronteira” da banda “Socialmente Incorreto” (www.vagalume.com.br/socialmente-incorreto/guerra-na-fronteira.html). A música foi escrita no ano de 2003, período em que ocorreram diversas mobilizações na Ponte da Amizade. Em uma destas ocasiões, a ponte chegou a ficar bloqueada por 12 dias.

Segundo o jornal Folha de Londrina, do dia 27 de setembro de 2001, a Ponte da Amizade foi fechada inicialmente pelos trabalhadores paraguaios no dia 10 de setembro de 2001, cerca de mil ambulantes, taxistas e sindicalistas exigiam a retirada de cinco mil brasileiros que trabalhavam sem residência comprovada no Paraguai, supostamente ocupando vagas de emprego da população paraguaia. Dois dias depois a polícia desocupou a ponte à força, 29 pessoas foram feridas e dez presas; no dia seguinte foi feito um acordo entre os sindicalistas e o governo paraguaio, o qual previa a retirada dos brasileiros ilegais em Ciudad del Leste.

Como resposta a decisão paraguaia, cerca de mil sacoleiros e mototaxistas brasileiros fecharam a ponte do lado brasileiro; a ponte ficou fechada até o dia 22 de setembro. Durante esse período os manifestantes entraram em confronto com a polícia federal, tendo como resultado dez feridos e seis presos, no dia 23 o tráfego foi liberado. Devido toda essa movimentação na fronteira, manifestações atrás de manifestações, o governo paraguaio decidiu suspender por 30 dias a fiscalização de trabalhadores ilegais.

Esta paralisação foi a mais duradoura ocorrida na região, por isso ela é tão lembrada pelos moradores da fronteira. Segundo Velo, ocorreram muitos atos violentos naquele período, e não só nessa manifestação especificamente, mas em quase todas as que acontecem naquele local. Ele nos conta que viu muita gente apanhar, pois tinha que ir para a ponte todos os dias, mesmo que o acesso estivesse fechado, pois em qualquer momento a ponte poderia ser reaberta, e ele precisaria se apresentar no trabalho. Caso a ponte reabrisse e ele não aparecesse na empresa, perderia o dia de serviço, o que acarretaria uma diminuição no seu salário final.

Durante todos os dias de fechamento da ponte Velo tinha de fazer o mesmo percurso para o trabalho. Mesmo que não conseguisse atravessar a ponte ele tinha de ficar lá na ponte, esperando o fim das manifestações. A música “Guerra na Fronteira” narra à operação da polícia naquele período. Ao assistir a todo aquele apelo da população e o descaso da polícia, Velo resolveu escrever a música:

“Operação na fronteira, pneu queimado no asfalto. 
Quem lidera você já sabe são os porcos fardados. 
Já os conhece de outra história e esse é mais um fato. 
Tome cuidado porque senão bala de borracha no seu rabo. 
Guerra na fronteira... 
A tropa de choque é seu mais próximo representante do estado. 
Guerra na fronteira.
 Não desista dessa luta não seja mais um derrotado”

No trecho abaixo se observa uma defesa dos trabalhadores do circuito sacoleiro, que segundo o interlocutor se submetem a tais práticas por falta de opção no mercado de trabalho brasileiro. Contudo, quando resolvem se unir e pedir melhorias nas suas condições de trabalho são expulsos das ruas pelos policiais que naquele momento representam o Estado.

“O dinheiro que você ganha não dá nem para comer. 
Você não quer roubar e luta para viver”.

A força tarefa da tropa de choque foi para a ponte para repreender os manifestantes, mas como diz a música o trabalhador não pode desistir da luta pelos seus direitos.

 “As força tarefa está aqui para conter.
 A sua fúria e sua raiva e você vai desobedecer. 
Guerra na fronteira”.

A segunda música analisada foi “Los Camiños de La Vida”, do Mano Zeu (www.palcomp3.com/manozeurap/los-caminos-de-la-vida-mano-zeu/). A composição retrata a história de vida de Zeu e de alguns de seus amigos, é a história de vida das pessoas que tiram seu sustento do país vizinho, o Paraguai. Segundo Zeu:
É a minha história e de muitos amigos meus, brasileiros, paraguaios e argentinos que trabalharam em Ciudad del Este. Eu comecei a escrever ela no ano 2000, quando comecei a trabalhar no Paraguai. Ficou muito tempo na gaveta, até que resolvi reformular ela pra gravar no álbum Brasil Ilegal.
Atualmente Zeu trabalha em outra atividade, como afirmamos no tópico anterior. Na época ele acordava às quatro horas da manhã, tomava banho, preparava o café e lia um trecho da bíblia antes de sair para trabalhar. A música narra exatamente sua trajetória:

“O despertador dispara é hora de acordar
 O corpo ta cansado, mas tenho que levantar 
De segunda a sábado 4:00hs da manhã
 Sem choro, “ta mil grau, ta porã” 
Um banho rápido, fervo a água, faço um café 
Pego a bíblia pra ler pra não perder a fé 
A nova Jerusalém, a nossa Canaã 
(Pã/Pã - buzina) vich!!! Já chegou a Van. 
Bato meu cartão 5:00hs da matina 
E segue a luta, e segue a sina 
Num depósito lotado com os chirá meus parceiros
Carregando caixa o dia inteiro igual camelo 12 horas por dia, sem perdão 
Salário de miséria, semiescravidão”

Na cidade de Foz do Iguaçu existem meios de transporte que levam os trabalhadores diretamente para o Paraguai. Elas fazem o trajeto do bairro até a galeria onde esses trabalhadores atuam. Normalmente, esse tipo de transporte passa muito cedo na casa das pessoas. Ainda escuro, atravessam a ponte em meio à neblina. Ele entra às cinco horas da manhã, trabalha em um depósito lotado, carregando caixa o dia inteiro, cerca de doze horas diárias. Durante a entrevista, Zeu aponta que as condições de trabalho narrados na música é a de uma pessoa que trabalha em uma loja de auto-serviço.
Ali dentro varia muito, depende da loja e que produto elas vendem. As condições que narram na letra são mais a realidade dos auto-serviços. Nas lojas de informática e eletrônicos as condições são um pouquinho melhor. Nos auto-serviços à gente fazia uma carga horária em média de 12 horas por dia. O trajeto pra ir e voltar do trabalho era em média de 1 hora e meia pra ir e 2 horas pra voltar. Tem lojas que dá 15 minutos de almoço, essa é a única pausa do dia. Eles não pagam alimentação nem transporte, tudo sai do salário que hoje tá em média de 800 reais. Os brasileiros que trabalham lá não têm direitos trabalhistas, acerto, fundo de garantia, seguro desemprego, nada. O trabalho é pesado, cansativo e estressante. Aí tem as condições dos laranjas também que não tem salário, ganham pela quantidade de vezes que conseguem atravessar com as mercadorias e quando são cadastrados só podem voltar a trabalhar um mês depois.
O trabalho que desenvolve é o de embalar os produtos comprados pelos sacoleiros e colocar em caixas para que possam levar para suas cidades de origem. Eles ficam no depósito, local em tem pouca ventilação e que torna o serviço desgastante, um local que futuramente lhe causará algum problema respiratório. Como ele diz na entrevista, o intervalo é de 15 minutos para o almoço e para muitos esse é o único período do dia durante o trabalho em que eles podem respirar ar fresco, o que é bem difícil naquela cidade, já que todo o centro comercial cheira a urina.

A letra da música ainda aborda outro tipo de ocupação precarizada, que seria o de laranja. Laranjas são trabalhadores contratados informalmente para transportar determinada quantia de mercadoria em troca de um valor previamente determinado, que é conhecido como “cota”. Esse serviço possui a função de auxiliar os sacoleiros na travessia dos produtos adquiridos pela Ponte da Amizade e pelos Postos de Fiscalização da Polícia e da Receita Federal (CARDIN, 2011). 

“Com a sacola pesada cheia de muamba 
Três horas no sol na fila que não anda 
Pessoas idosas estão ali na correria
Sem carteira assinada, sem aposentadoria 
Sem plano de saúde, direitos trabalhistas 
Mas precisa levar o sustento pra família 
Os caminhos da vida pra nós são cansativos 
Os caminhos da vida nos deixam pensativos”.

Independente de como se consegue dinheiro para sustentar a família, muitos dos sujeitos fronteiriços se submetem a fazer qualquer tipo de serviço para não deixar faltar comida em casa. Os trabalhadores são conscientes de que aquele tipo de ocupação não é a ideal, porém, como não conseguem se enquadrarem no perfil profissional exigido pelos empregadores de Foz, eles se submetem ao tipo de ocupação que lhes aparece. No caso, o trabalho informal na cidade vizinha.

“Na fronteira do ilegal, do informal, sem padrão 
Na cidade da falsificação Sacoleiros, laranjas, cigarreiros, guerreiros 
Eletrônicos, ferramentas, óculos, isqueiros
 CDs, DVDs, produtos falsificados 
Brinquedos, informática, têm tudo desse lado. 
Nesse formigueiro droga e arma é mato 
Todo mundo quer por comida no prato. 
Muito cabrito, moto e carro roubado 
Barcos, cavalo loco, assalto e tráfico 
Troca de tiro na fronteira, dezenas de mortes 
Na ponte da amizade, no Jupira, 
Vila Portes Acertos, propinas, driblam a fiscalização 
Muitos se corrompem por dinheiro na mão
Mas tem o povão, trabalhador, sofredor 
Vendedores ambulantes, carrinheiros, camelôs 
Vendendo perfume, meias, enfeite de natal 
Na rua agitada ao som do Manu Chao. 
Crianças magricelas pedindo um trocado 
Muitos pelas ruas catando papelão 
Muitos desempregados andando sem direção 
Muito protesto, muita manifestação 
Vi cada fita que cortou o coração. 
Milhares de taxis, Vans, Moto-taxistas 
Se liga malandro, não bobeia na pista 
Quem menos corre voa aqui no Paraguai 
As lojas estão lotadas da Jebai à Lai-Lai 
Americana, Mercosul, Esperança, Pagé
 Na Zuni, King Fong, Mina Índia, vou na fé 
Chineses, indús, japoneses, libaneses
Coreanos, árabes, esperando os fregueses 
Escravizando a mão-de-obra, só visam lucro”.

Ele expõe sua visão do Paraguai, lugar onde não existe segurança, onde você encontra de tudo, coisas boas e outras ruins. São vendedores ambulantes vendendo todos os tipos de produtos, até mesmo drogas e armas. É comum ver as pessoas fugirem da fiscalização da receita federal, por outro lado tem pessoas que fazem acertos com a própria polícia, pagando propinas. Além de policiais e civis corruptos, tem pessoas de bem que trabalham com ética e dignidade, e que estão nessa situação unicamente por não encontrar outra forma de subsistência. Não suficiente, ao mesmo tempo em que encontramos pessoas trabalhando, encontramos muitos desempregados, criança pedindo esmola, índios vendendo seus artesanatos e paraguaios vendendo chipa.

Por outro lado, Zeu não se esquece dos patrões, ele aponta a diversidade étnica dos donos das galerias e aponta que esses imigrantes que vieram atuar no Paraguai na busca de lucros por meio da exploração de seus funcionários. Segundo Silva (2008), os imigrantes de origem árabe estão todos vinculados ao comércio, seja na cidade de Foz do Iguaçu ou Ciudad del Este. A primeira geração de imigrantes árabes estabelecidos em Foz do Iguaçu veio durante a década de 1970, com a justificativa de ficar por pouco tempo. Segundo a autora, a grande maioria chegou pelo Porto de Santos. Ficaram provisoriamente na capital (São Paulo) e a partir daí começaram as atividades de mascates pelo sul do país (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o norte do Paraná), para finalmente, se estabelecerem em Foz do Iguaçu. Estas condições imigratórias aconteceram também com os sírios e libaneses.

Quando você vivencia a fronteira a partir da cultura, as delimitações geopolíticas parecem perder o significado entre diferentes identidades. Para Silva (2008), tal realismo geopolítico (a cidade de fronteira entre três países) convive de maneira surpreendente com o seu oposto: a percepção vívida da diversidade experimentada em Foz do Iguaçu, cujas razões advêm da sua história, feita de migrações sucessivas. Ela é explicitada por meio de uma das categorias de percepção imediata, elaborada pelos moradores sobre a cidade, que enxergam Foz do Iguaçu como um lugar atípico. O cotidiano de Foz do Iguaçu é marcado pelo cosmopolitismo, visível em sua estrutura urbana. Além dos espaços sociais da comunidade árabe, há na cidade um templo budista, igrejas evangélicas e católicas, clubes específicos e associações atuantes - dos portugueses, dos japoneses, dos coreanos, dos italianos e outras menores, como a associação franco-brasileira.

Parte significativa destes imigrantes, a partir dos lucros aferidos na fronteira, decidiu fixar residência na região. Para tanto, investiram no Paraguai, local com uma carga tributaria menor e leis trabalhistas mais flexíveis. Dentro de um contexto de baixo índice de desenvolvimento e de alto fluxo de capitais e mercadorias na fronteira, o circuito sacoleiro configura-se como um universo gerador de emprego para muitos brasileiros e paraguaios, estabelecendo uma rede que envolve brasileiros desempregados que atuam como atravessadores, brasileiros e paraguaios que trabalham diretamente vendendo em Ciudad del Este e, por fim, uma grande população migrante, proprietária das lojas e elo de ligação da América Latina com os setores produtivos chineses.

 Eliseu fala sobre a situação de um jovem pobre e negro, morador de uma favela, sem condição de vida digna, que atravessa todos os dias a ponte em busca de seu sustento, tentando fugir do desemprego da cidade.

“A vida é sofrida pra quem nasce no gueto 
Nos braços da miséria, na favela, pobre e preto. 
Os caminhos da vida são incertos 
Quem sobrevive aqui merece honra ao mérito 
Tem muita neblina do outro lado da aduana. 
Lá no Paraguai onde eu defendo a minha grana 
Mas a crise mundial chegou devastando tudo 
As casas de câmbio fechando é o sintoma 
De um sistema falido entrando em coma 
Que afeta a todos, inclusive a nós 
Que tenta fugir do desemprego de 
Foz To cansado, mas vou levando, 
Dia após dia, semanas, meses e anos”

Essa pessoa tem uma vida muito desgastante, quando ele diz “quem sobrevive aqui merece honra ao mérito” faz referência ao fato de serem poucas as pessoas que aguentam viver nessas condições por um longo período de tempo. Morando em uma situação de vulnerabilidade, acordando muito cedo todos os dias, indo trabalhar em outro país, com outra cultura, outra língua, tendo que se adaptar a tudo isso sem questionar. Muitos dos que trabalham nessa situação não tem carteira de trabalho, e quando tem, nunca foram assinadas, pois nunca conseguiram um trabalho formal, dificultando a entrada no mercado de trabalho iguaçuense. Logo, esse sujeito social leva a vida do jeito que consegue, sem se importar muito com o que a sociedade determina como sendo certo ou errado.

Zeu aborda também a parte cultural da região, na fronteira se escuta diversos estilos de músicas, comemos e bebemos coisas brasileiras, paraguaias e argentinas. A influência cultural ocorre por todos os lados, as músicas tocadas nos bares e nos carros de som do Paraguai são em grande medida brasileiras e os grupos musicais que vão tocar nos bailes são contratados geralmente no Brasil. Os meios de comunicação, principalmente os canais de TV brasileiros, reforçam a presença do português no país vizinho. Entretanto, eles não se esquecem das suas origens, quase todos os paraguaios de Ciudad del Este falam duas línguas, o espanhol e o guarani, e essa influência paraguaia faz com que os brasileiros que trabalham em Ciudad del Este aprendam tanto o espanhol como o guarani.

As danças, a religião, as tradições e a culinárias são muito dinâmicas nas três cidades. É comum ver as pessoas ao atravessar a ponte comprar um pacote de chipa das índias paraguaias, como também é comum os próprios moradores de Foz fazerem suas sopas paraguaias em casa, sem contar o tererê, que é a bebida da fronteira. Outra comida comum na região é o bife de chorizo argentino, os alfajores, os empanados, suas azeitonas, queijos e salames, que fazem com que os brasileiros e os turistas atravessem a Ponte Tancredo Neves para irem a feirinha tomar uma cerveja argentina e comer uma tábua de frios e empanados.

“Cumbia, reggaeton, polca e cachaca 
Embala o dia a dia e alegra a rapa 
Tererê, cosido, sopa paraguaia, chipa 
Um povo que preservou suas raízes indígenas 
O artesanato, a cultura, o cantar, 
O guarani: “derassori chirá”


Sem contar a influência linguística da região, todos aqui entendem e falam pelo menos um pouco de portunhol, linguagem muito utilizada pelos moradores fronteiriços devido o intenso fluxo entre os três países. Zeu utiliza em suas músicas algumas palavras em espanhol e em guarani, quando questionado sobre o fato ele responde estar arranhando um portunhol:
Pois é, eu to arranhando um portunhol. Uso muitas palavras em espanhol e algumas em guarani no dia a dia. Algumas viram gíria entre a galera dos bairros e acabam indo pras letras. Quando elas estão nas letras das músicas é porque já se popularizaram na rua.

Para finalizar a análise da letra desta música, apresentamos um trecho que aparece em vários momentos da canção:

“(...) O vento frio no rosto, o pensamento longe 
Apresso os passos ao atravessar a ponte (...)” 

Na volta do trabalho ele vem de ônibus, a distância é bem longa do seu trabalho até o ponto de ônibus onde a condução dele passa. Segundo ele, atravessa rapidamente a ponte para vencer o quanto antes a distância que o separa do transporte público.
Era pra chegar mais rápido em casa (risos). O horário que a gente saía tinha poucos ônibus passando na Ponte então tínhamos que caminhar até a Av. JK, um trajeto que dava cerca de 1 hora de caminhada. Isso depois de um dia inteiro de trabalho, era melhor apressar os passos pra pegar o busão logo e ir pra casa descansar, ou se arrumar pra ir pra escola.
A música “Paragua” da banda Olho D’água (www.ouvirmusica.com.br/banda-olho-dagua) narra de forma satírica o cotidiano de um sacoleiro que vem uma vez por mês para Ciudad del Este comprar produtos mais baratos para vender em suas respectivas cidades. A música narra à estória de um cara que sai de sua cidade a fim de comprar produtos no Paraguai, ele pega um ônibus aparentemente fretado para esse tipo de viagem e embarca em numa grande aventura. A composição é bem descontraída, diferente de todas as outras músicas apresentadas neste artigo: 

“Saí de casa viajei a noite inteira, 
já levei uma canseira pra chegar no Paraguai. 
Não por vontade mas foi por necessidade, 
por turismo há muito tempo a gente já não viaja mais!!! 
Sou sacoleiro, muambeiro, chame do que quiser,
tenho dois filhos, um cachorrinho e uma mulher”

Ele se declara sacoleiro ou muambeiro, diz que vai atravessar ligeiro para poder comprar primeiro. Existem de fato algumas galerias que abrem de madrugada, para vender somente para sacoleiros que vêm de ônibus e que querem voltar para sua cidade ainda de manhã. A travessia da ponte apresentada por ele utiliza dos serviços dos mototaxistas, ônibus e vans. Para ele, os mototaxistas correm bastante e representa o tipo de transporte mais utilizado. Esses mototaxistas pegam os clientes do lado brasileiro da ponte, a poucos metros da aduana brasileira e levam as pessoas até o lado paraguaio, passou à aduana paraguaia a pessoa desce (este percurso sai em torno de três reais). Muitas vezes esse tipo de transporte também é utilizado na hora de voltar para o Brasil, pois é bem mais rápido e a probabilidade de ser parado na fiscalização é menor.

Outro tipo de transporte utilizado são os ônibus, que leva e trás pessoas do terminal de transporte publico de Foz do Iguaçu até o terminal de transporte de Ciudad del Este, ambos localizados nos centros das respectivas cidades. Este tipo de transporte é mais utilizado para quem mora mais ao centro da cidade de Foz e para turistas que vem por conta própria e sem guia de turismo, ele é tido como mais seguro. Por fim, o mais precário meio de locomoção, e também muito conhecido pelos sacoleiros, são as vans. Furgões que transportam tanto pessoas como produtos, eles normalmente atuam na volta do Paraguai para o Brasil, levando os produtos comprados para o seu lugar de destina na cidade, normalmente hotéis que servem de depósitos de mercadorias.

A música apresenta uma modalidade do serviço informal na fronteira conhecido mundialmente, o transporte de cigarro, que na década de 1990 foi uma das imagens mais divulgadas pela mídia quando se tratava de contrabando. Podemos observar na música como ele retrata essas particularidades da fronteira:

“Cheguei inteiro, vou atravessar ligeiro, 
pra poder comprar primeiro vou até passar a pé!!! 
Meu deus que altura, essa ponte é uma loucura, 
quanta gente diferente quer chegar na minha frente!!!
E o motoqueiro kamikaze acelerando com vontade,
 ônibus cheio e as vans cheias de gente. 
Preste atenção: mas que esporte mais bizarro 
 “arremesso de cigarro” lá embaixo vão buscar!!! 
E o corre-corre continua alucinado, 
tem caixa pra todo lado, sacola em todo lugar.
 Parece um caos, estava uns 40 graus e 
do cheiro de xixi eu quase consegui esquecer. 
Chegando lá era uma muvuca só, 
confusão que dava dó, é tão difícil entender!!!”.


O esporte bizarro narrado é o arremesso de cigarro, prática de contrabando quase extinta na região da Ponte da Amizade. Na década de 1990 era comum as caixas de cigarros serem arremessadas pelos furos da cerca de segurança da ponte. Essas caixas caiam na barranca do rio, nesse momento outras pessoas já estavam prontas para retirar as caixas dali e levá-las para um lugar seguro. Entretanto essa prática diminuiu muito, segundo Battisti (2008):

táticas de fiscalização simples, como por exemplo colocar dois policiais no meio da ponte mostrou-se suficiente para desarticular o sistema de passagem de cigarro. No entanto, o fim de um método não significa o fim da prática de contrabando daquele produto, outras formas passam a ser usadas para fazer com que esta mercadoria entre no Brasil.
O autor da letra não soube explicar exatamente quando ele escreveu a música, assim acreditamos que tenha sido antes da reurbanização do microcentro iniciada em 2004. Ao chegar ao país vizinho, segundo a música, você começa a enxergar as diversas galerias, barraquinhas, banquinhas, pessoas andando nas ruas vendendo coisas de todos os tipos,

“Tanta muamba, tanta coisa de outro mundo,
 tem perfume vagabundo e camisinha musical. 
Tem ferramenta não sei até quando aguenta, 
tem até computador e maquininha digital!!!
CD pirata, lá tem jaqueta de napa, 
o tênis daquela marca que eu nunca ia comprar.
 Tudo importado, tem chinês e japonês, 
tem árabe pechinchando e gente de todo lugar. 
E o camelô ainda jurava: é relógio original,
 comprei um Rolex só por “10 real””. 

De acordo com Rabossi (2004), a camisinha musical é uma das ofertas que mais chamam a atenção nas ruas de Ciudad del Este, se o cliente for brasileiro os vendedores falam : “Camisinha musical, amigo?” e se são argentinos e jovens: “Forro musical, flaco?”. As pessoas começam a rir, olham desconfiadas e acabam perguntando: como assim? Logo o vendedor coloca na orelha do pretendido cliente um pacote de preservativos do qual sai uma música. Isso faz com que o cliente pense se isso realmente é possível. Ainda segundo Rabossi, o suposto inventor dos preservativos musicais nos dá um exemplo da ‘invenção’ que os camelôs têm que ter para poder vender. Mas além de ser um divertido exemplo da criatividade para as vendas é também uma boa maneira de entrar nas formas de abordar os clientes e nas suas reações.

Os ambulantes de Ciudad del Este muitas vezes abordam quem passa a sua frente. É nesta abordagem que se esboça a primeira leitura sobre a origem do cliente, através da roupa, do estilo de andar, das palavras. Logo, o vendedor tenta falar com a pessoa na própria língua dela. Evandro Carlos Galeazzi descreve sua visão do microcentro:

“Mas lá no shopping tem muita coisa legal, 
encontrei um CD player que era tão sensacional. 
Cheio de estilo perguntei o que era aquilo, 
o vendedor me respondeu: 
_ É lançamento mundial! 
Achei um óculos que você nem imagina,
 era pra ser italiano, tava escrito made in china! 
Chegou um cara perguntando o que eu queria, 
dizendo que conseguia: me espera ali na esquina!”

Tudo o que você pedir para um vendedor ambulante naquelas ruas, ele tentará achar pra você. Se ele não encontrar, vai tentar te vender outra coisa no lugar daquilo que você precisava. Ele vai te mostrar algum lançamento mundial, como a música apresenta. Ciudad del Este possui produtos de todos os cantos do planeta, são lançamentos chineses, árabes, norte americanos, coreano, indianos, criando uma situação que dificilmente é encontrada em outra região. O principal problema para um sacoleiro é ser parado pela Receita Federal.

O problema varia entre “o tipo de produto que ele está importando, se é proibido ou não até a questão da cota”, que é o valor limite que cada indivíduo pode adquirir no Paraguai sem a necessidade de pagar os impostos correspondentes aos produtos. Para tanto, o comprador tem de ter as notas fiscais de todas as mercadorias adquiridas fora do país, caso contrario perde tudo, podendo até ser preso.

“Tem sacoleiro esperando,
fica só arquitetando pra passar pela polícia federal!!!
 Não adianta ficar brabo, esse trânsito parado 
é sempre assim pra voltar para o nosso lado!!!
 E no meio de tanta gente faz uma cara inocente, 
é menos chance de você ser revistado. 
Tem uma coisa que é o que mais me importa, 
eu gastei além da cota, acho que eu tô ferrado”.

Perguntamos ao interlocutor sobre o porquê de escrever uma música sobre a fronteira dessa maneira, trazendo tantos elementos específicos do trabalho do sacoleiro. Evandro diz sem pestanejar: “me senti na obrigação de ajudar a divulgar minha região, que é tão bela e rica. E como morador, conseguiria ser mais fiel aos temas daqui”. Segundo ele:

Foi totalmente espontâneo. Foi escrita do início ao fim em 40 minutos. Sem instrumentos, nem computador, somente papel e caneta. Como o tema é rico, não faltaram argumentos para acrescentar á letra. Eu me inspirei na vida de um sacoleiro fictício de outro estado, que faz essa viagem como rotina. Misturei ao personagem um pouco da história do cantor da banda na época, para dar autenticidade. A esposa dele também fazia esse trabalho.


Não podemos esquecer que muitas vezes Evandro escreve as músicas por encomenda e outras por vontade própria. Esta canção em especial foi feita para completar o CD do grupo. Quando perguntado se a temática teria sido uma indicação do grupo que a gravou, Evandro respondeu:

Não. Como produtor do trabalho, eu tinha liberdade total para escrever, e como a idéia inicial era fazer um CD muito bem humorado, estávamos com certa dificuldade de encontrar obras inéditas nesse estilo. Acabei por escrever diversas faixas para essa gravação. 


Trabalharemos agora com duas músicas da banda Artilleria Pesada (www.facebook.com/artilleriapesada). A primeira é “Fronteira Blindada”, escrita em 2008. Este nome foi baseado no nome dado a uma operação da Polícia Federal que vem ocorrendo desde meados de 2006, visando acabar com o contrabando na fronteira. De acordo com Digão, essa música foi uma forma de manifestação contra tudo o que vinha ocorrendo na cidade, desde a possível construção do muro no Rio Paraná até a suposta invasão norte-americana na região. Em linhas gerais, a música apresenta um fato ocorrido no ano de 2007, a possível construção de um muro nas margens do Rio Paraná com a justificativa de conter o contrabando. Segundo a matéria o site Paraná Online do dia 12/03/2007:
Na batalha para reduzir o volume de contrabando vindo do Paraguai, a Receita Federal começa, ainda neste mês, a construção de um muro que cercará a Ponte da Amizade, que faz a ligação com o país vizinho, em Foz do Iguaçu (PR). O objetivo da obra, que faz parte da segunda fase de reformas dos sistemas de fiscalização, é impedir que pessoas chegassem próximo ao Rio Paraná para pegar as caixas pacotes jogados de cima da estrutura. A tentativa de burlar a fiscalização com o arremesso, sobretudo de pacotes de cigarro, de cima da ponte para as margens do Rio Paraná, é uma prática antiga. Para tentar conter o contrabando dessa forma, a Receita Federal já tinha reforçado as grades sobre a ponte e aumentado sua altura. No entanto, com o aumento da fiscalização na nova aduana muitas pessoas arrebentaram as grades e o lançamento de mercadorias da ponte voltou com grande força. De acordo com a Receita Federal, a nova barreira vai cercar toda a zona primaria onde fica a Ponte da Amizade. 
 Nesse período saíram diversas matérias em jornais e telejornais a respeito dessa informação, pessoas dizendo que “assim seria melhor”, outras dizendo que “de nada adiantaria” e outras totalmente contrárias, pois seria uma forma de bloqueio ao país vizinho, uma afronta ao Paraguai. No jornal Gazeta do Povo do dia 15/03/ 2007, o anúncio da construção de uma barreira de contenção no lado brasileiro da Ponte da Amizade acabou gerando uma polêmica de caráter diplomático entre o Brasil e o Paraguai. Segundo o jornal:
O muro para impedir que mercadorias contrabandeadas sejam arremessadas às margens do Rio Paraná ganhou status separatista, a exemplo dos que existem entre o México e os EUA e em Jerusalém, dividindo os territórios israelense e palestino. Por falta de informações, alguns empresários vizinhos chegaram a pedir a saída do país do Mercosul e o início de negociações comerciais diretas com os EUA. O chefe do Legislativo de CDE, Nelson Aguinagalde, qualificou a construção de afronta e desrespeito com o Paraguai e falta de profissionalismo dos órgãos de fiscalização do Brasil na tentativa de frear o contrabando. “Não condiz com a suposta irmandade que deveria existir no bloco regional”, afirmou.

Com isso, a Receita Federal teve de intervir e explicar qual era a intenção da construção, que o muro não seria construído para separar o Brasil do Paraguai, mas para facilitar as relações comerciais legítimas e o fluxo turístico, propiciando maior conforto e facilidade para o cumprimento das normas, pelos transportadores, turistas e demais pessoas que transitam pelo local.

O tão comentado muro não foi construído, o governo brasileiro voltou atrás e em comunicado do então Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva, disse que o Brasil iria negociar com o Paraguai outras medidas para enfrentar o contrabando na fronteira. Segundo o site G1, do dia 20/05/2007, o ex-presidente em entrevista ao site afirmou: “Não vai haver mais necessidade de ter muro. Já chega o muro de Berlim, o do México, o muro nos Estados Unidos e na Faixa de Gaza. O que nós precisamos é aumentar a fiscalização e não criar um muro, porque somos dois países amigos.

Para Digão, viver na fronteira não significa perigo, como a mídia apresenta. Para a televisão e para os jornais as fronteiras de Puerto Iguazú, Foz do Iguaçu e Ciudad del Este aparecem publicamente como um ponto altamente crítico não somente devido as práticas de contrabando, de tráfico de drogas, de lavagem de dinheiro e pirataria de patentes, mas também pela grande associação de comunidades árabes depois do 11 de setembro. Entretanto, segundo a música, viver na fronteira não é tão assustador como dizem: 

“Mais de 60 etnias convivendo em
 Paz Falar Terror virou moda pra TV e pros jornais 
Muralhas sendo erguidas, as pontes fechadas 
Facadas pelas costas, sem liberdade jamais”

Além de “Fronteira Blindada”, há outras composições escritas pelo Digão com muita aproximação temática. “Gringo”, por exemplo, é uma segunda música da banda “Artilleria Pesada” que aborda o assunto. Nesta letra em específico, ele apresenta sua insatisfação em relação à presença norte-americana na faixa de fronteira.

“Eu não preciso de ajuda humanitária, 
Sua presença por aqui é desnecessária 
Soldado gringo filho da puta
 Vai dando área.
A invasão já começou
 Abra bem os olhos e comece a lutar 
Gringo, gringo, go home. 
Yankee, Yankee, Tape Ho 1 "


Digão destaca em suas letras a questão do pertencimento. Ele tenta demonstrar um processo de construção de uma identidade mais subjetiva de quem vive na fronteira, uma identidade que seja própria da região, que tenha aspectos transnacionais, com regras próprias, leis próprias, que tem uma vida que é própria, que difere daquilo que os Estados Unidos, as capitais dos três países e até mesmo da grande imprensa pensa e fala sobre a fronteira. Em síntese, ele explora a contradição que existe entre os problemas e a vida cotidiana do morador da fronteira e o que o estado nacional pensa sobre.

Na prática, existe um distanciamento muito grande entre a imagem da fronteira expressa oficialmente e o que realmente acontece na região. Neste sentido, tenta colocar em suas letras que aquilo que se fala não corresponde exatamente aquilo que as pessoas vivenciam. Evidentemente que existe um pouco de exagero na forma como as letras são construídas, porém isso é um recurso para estabelecer um contraponto em relação às leituras midiáticas mais comuns. Isso é bem visível na música “Gringo”:

“Missão da ONU só acredita quem é louco
 Exploradores e ladrões são o bicho solto 
Um show pra globo, ninguém te mostra e você não vê 
A invasão já começou 
Abra bem os olhos e comece a lutar 
Gringo, gringo, go home.
 Yankee, Yankee, Tape Ho”


Já na música “Sin Frontera” do “Bloodshot” é notório o uso de diferentes idiomas e é também desta forma que ele tenta mostrar a identidade da fronteira, o seu diferencial. Enxergamos o trânsito nas linguagens comuns da fronteira, o guarani, o espanhol e o português:

“Condenados (Sin Fronteras) 
a vivir (Sin Fronteras) 
por la vida (Sin Fronteras)
 sin reglas 
ñderasore2 amigo 
cheraá é s mi nombre 
Do meu lado do mundo é assim
 Estrangeiro pra você é família pra mim 
Bloodshot veio aqui representar
O que eu to cansado de falar 
Que essa aqui é a terra dos meus pais 
É a terra do meu filho 
Porque isso aqui é assim 
Isso aqui é Foz do Iguaçu.”

Nesta música a presença dos estrangeiros também é explorada, mas de forma diferente das canções anteriores. Aqui, é abordado o fato de a região ser composta por pessoas em transito, por migrantes e pelos guaranis em suas eternas caminhadas, assim o termo estrangeiro, que é muitas vezes utilizado para estabelecer uma fronteira étnica, na região tem outra representação, pois os seus moradores nascem e vivem entre pessoas de diferentes origens. Deste modo, termina a música falando de sua genealogia, tentando fortalecer seu pertencimento a uma região que tem um conjunto de elementos particulares e que não precisa de intervenção, ainda mais por pessoas que não entendam aquela realidade. 

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 As músicas analisados nesta pesquisa são, em um primeiro momento, resultados dos esforços individuais de alguns grupos musicais existente na região das Três Fronteiras. Assim, procuramos apresentar estilos musicais diversos, para que não ficássemos presos a uma única visão das relações existente nesta fronteira, pois é facilmente constatado que o gênero musical contribui na forma em que a fronteira é representada. Nas composições do Zeu trabalhar no Paraguai é sinônimo de degradação da força produtiva, enquanto que a mesma situação é descrita de forma irônica pelo Evandro como uma grande aventura.

Trabalhamos em geral com dois tipos de música, o primeiro é descritivo, tanto a música “Los camiños de la Vida”, do Mano Zeu, como a música “Paragua” de Evandro Galeazzi narram as práticas cotidianas de um trabalhador na fronteira. Ambas estão relacionadas à questão econômica, o trabalho na fronteira, direcionado ao contrabando de mercadorias. A música “Paragua” apresenta de forma inusitada o trabalho do sacoleiro, ele narra desde a saída do indivíduo da sua cidade, todos os fatos ocorridos no país vizinho, onde o trabalhador compra seus produtos, até o retorno para sua cidade.

Ele não aborda de maneira crítica questões sociais na música, não questiona a legalidade da situação. Sua idéia ao compor era de escrever uma música alegre que falasse um pouco sobre a região. Para tanto, escreveu uma letra alegre e divertida, num ritmo dançante a fim de que as pessoas ao ouvissem a letra achassem interessante e divertida ao mesmo tempo. Por outro lado, a música de Zeu é mais crítica, apresentando a vida de uma pessoa que tira seu sustento no país vizinho, em condições precárias de trabalho. Ele discute problemas sociais visivelmente esquecidos, ou melhor, deixados de lado pelo Estado, falando de pobreza, desemprego, precarização do trabalho, da falta de direitos trabalhistas e da necessidade do iguaçuense em se submeter a tais condições, garantindo o lucro de determinados grupos sociais.

As músicas de hardcore são mais questionadoras do que as outras apresentadas neste trabalho, elas tem características próprias, apresentam suas visões dos problemas vivenciados na região com uma visão mais aguda dos problemas locais. A música “Guerra na Fronteira” se foca em um acontecimento específico da ponte, onde os policiais avançam em direção aos trabalhadores que lutam pelos seus direitos. É uma música de protesto em relação às condições de trabalho no país vizinho.

Já as três músicas escritas por Digão têm em sua essência o mesmo questionamento. “Nós somos daqui, gostamos daqui e não precisamos da ajuda de pessoas de fora, que acham que nosso comportamento é inadequado, e que acreditam que o modo de vida deles é o correto”. Além disso, narra questões de como as grandes mídias tratam as três cidades, denegrindo as suas respectivas imagens, a fim de que capitais estrangeiros venham “salvar” essa região.

Para finalizar, embora a pesquisa tenha uma amostra muito restrita, destacase o fato de que os moradores da região assimilam o universo em que vivem. Pensar e viver a fronteira não corresponde a tarefas exclusivas dos investigadores, dos jornalistas e políticos. A fronteira está presente no processo de formação e de ação dos sujeitos, respingando na linguagem, no trabalho na arte. Assim como encontramos sinais da identidade fronteiriça nas canções, acreditamos que seja possível observar mais de sua presença em outras manifestações locais. Deste modo, por meio de outras investigações, talvez seja possível ampliar o entendimento daquilo que se compreende como sujeito fronteiriço.


NOTAS * Graduada em História pela Faculdade União das Américas (UNIAMÈRICA). Especialista em Gestão e Ações Culturais (UNIOESTE). Contato: alinitorres@hotmail.com 

** Doutor em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná

(UNIOESTE). Contato: eric_cardin@hotmail.com

1 Tape Ho é uma expressão em Guarani, cuja tradução livre é “vá embora”. 
2 Ñderasore é uma expressão em Guarani, cuja tradução livre é “vixe maria”.



AGÊNCIA ESTADO. Receita Federal vai construir muro na Ponte da Amizade. Paraná Online. 12 mar. 2007. Disponível em: http://www.parana-online.com.br/editoria/especiais/news/229488/ . Acesso em: 06 out. 2012.

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Referências:
Projeto do Saber (Sistema de Acesso à Biblioteca Eletrônica de Revistas)
Tempo da Ciência volume 20 número 39 1º semestre 2013 A R TI G O
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Por Marcelo Botura Souza